A outra face de San Telmo

Manhã de Domingo em Buenos Aires é sinônimo de Plaza Dorrego lotada. No local é realizada, de maneira ininterrupta desde 1970, a tradicional Feira de San Telmo. O que atrai cerca de 10.000 pessoas, a maioria turistas, todos os finais de semana à feira são as 270 tendas com todo o tipo de antiguidade que você possa imaginar. Pode até parecer ser um caos, mas a feira possui uma organização exemplar: não se pode vender nada que seja fabricado após a década de 70, as posições que as tendas ocupam são determinadas por meio de sorteios realizados a cada três meses, e seus donos não podem se ausentar dos seus postos. É tamanha a variedade de objetos à venda que é quase impossível não encontrar algo que agrade. Para aqueles que não querem gastar nada, a dica é deixar o dinheiro no hotel!

O burburinho ao redor da praça, os artistas de rua, assim como os cafés e restaurantes próximos, contribuem para o clima de festa que toma conta do bairro nos finais de semana. Para todos os lados que se olha o que se vê é uma multidão em um constante vai e vem, compro ou não compro, bebo ou não mais uma cerveja, fico mais um pouco ou já vou embora. Embora seja uma fascinante experiência antropológica, todo esse frenesi acaba por deixar em segundo plano outras atrações do bairro.

Basta chegar na Plaza Dorrego em qualquer dia durante o meio da semana para perceber uma outra face de San Telmo. As ruas bem mais vazias permitem, por exemplo, avaliar  a bela arquitetura de vários casarões dos séculos 18 e 19, testemunhas de uma época em que o bairro, o mais antigo da cidade, era habitado pela aristocracia portenha. Em 1871 uma epidemia de febre amarela assolou Buenos Aires e devastou a região, obrigando seus ricos moradores a se mudarem para os bairros do norte, como a Recoleta. Iniciou-se então um período de grande decadência da região sul da cidade, com os casarões transformados em cortiços ocupados por imigrantes europeus pobres.

Em um desses antigos casarões fica a Pasaje de La Defensa, um dos meus lugares prediletos do bairro, e que pertenceu a tradicional família Ezeiza. O projeto arquitetônico do prédio de dois andares, construído em 1876, tem influência italiana e no piso inferior os cômodos são voltados para três grandes pátios: Patio del Tiempo, Patio del Árbol e Patio de los Ezeiza. Após a crise da década de 30 o local se tornou um cortiço onde viviam cerca de 30 famílias, mas em 1981 foi reformado e atualmente é um interessante mercado de pulgas, com vários brechós e antiquários.

A menos de uma quadra da Pasaje está a Iglesia Nuestra Señora de Belén, declarada Patrimônio Histórico Nacional e uma das mais antigas da cidade. Sua construção começou em 1735 como um projeto dos jesuítas e só foi finalizada em 1876. A igreja possui uma fachada barroca e seu interior, embora simples, possui nove altares.

Uma caminhada calma pelas ruas de paralelepípedo do bairro revela uma enorme quantidade de lojas de antiguidade. Algumas delas ficam em locais quase escondidos, mas possuem peças bem conservadas e interessantes. Outras possuem grandes vitrines que despertam a atenção imediatamente. Abre parênteses: foi em uma dessas caminhadas que encontramos um telefone quase todo de madeira, fabricado em 1931, daqueles com fone pendurado por um gancho e em perfeito funcionamento, cujo preço era bem mais em conta que aqui no Brasil. Resultado: ele veio parar aqui em casa! Entendeu agora porque eu disse no primeiro parágrafo para deixar o dinheiro no hotel se não quiser gastar? Pois é! Fecha parênteses. :-)

Quando bater uma fome, opções não faltam em San Telmo. Para os fanáticos por carne e futebol, uma ótima pedida é o La Brigada. O ambiente tem uma decoração repleta de  camisas de vários times de futebol da Argentina e de outros países, bandeiras, flâmulas, posters e autógrafos de jogadores famosos. A comida não decepciona: o meu bife de chorizo com papas fritas, devidamente acompanhado de uma Quilmes gelada, estava muito bom!

Mas para quem prefere um ambiente com uma decoração mais elegante e cozinha francesa, a escolha certamente é a Brasserie Petanque. E para não deixar dúvidas a respeito das origens do proprietário do bistrô, basta o cliente se acomodar em uma das mesas para ser agraciado com uma dose de kir, uma típica bebida francesa. Aí é só pedir uma das opções do cardápio e bon appétit! O meu crepe de cordeiro e o crème brûlée estavam divinos!

Com a fome saciada, não dá para ir embora sem antes caminhar pelos corredores do tradicional Mercado de San Telmo, outro Patrimônio Histórico Nacional Argentino, inaugurado em 1897 e que ainda conserva a sua estrutura original formada por vigas, arcos e colunas metálicas. Uma grande cúpula no centro do prédio abriga o pátio onde estão situadas as as tradicionais bancas de carne, vegetais e frutas. E nos corredores de acesso existem dezenas de (surpresa!) lojas de antiguidade.

One Response to “A outra face de San Telmo”

  1. Rosângela disse:

    Me senti lá, ao vivo e a cores, lendo seus comentários! Ótimo!

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